quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Marina

Versão reescrita

Ela não era muda, só nunca sabia o que dizer para aquelas pessoas que sempre passavam apressadas pela pracinha. Ela passava as manhãs sentada no balanço vermelho. Dia após dia lá estava a menina com seus 15 anos balançando as suas ideias. E Marina era assim, meio muda, meio quieta. Quase nunca alguém vinha falar com ela, mas ela nem ligava, sempre foi assim. Ela observava calada as histórias das outras pessoas. De toda a praça, quem puxava um pouco mais de assunto com a menina era o Seu Pedro, um velinho já com seus oitenta e poucos anos bem vividos. Marina sempre observava-o passar. De um lado para o outro. Do outro lado para o um. De manhã ele saia cedinho para comprar jornal, depois ficava longas horas conversando com Antônio, o dono da padaria, de quem ele compraria uma baguete que acabara de sair do forno a lenha. Era sempre assim. E Marina com seu vestido de bolinhas sempre balançando no seu balanço vermelho. Depois de Seu Pedro comprar jornal e ficar longas horas conversando com Antônio, o dono da padaria, de quem ele compraria uma baguete que acabara de sair do forno a lenha, o velhinho sempre vinha puxar algum assunto meio besta com Marina. As vezes eram conversas sem pé nem cabeça. "Quando eu tinha meus 15 anos, e isso já faz algum tempo, meninas bonitas como você não ficavam assim, sozinhas. Cadê as outras meninas bonitas para você conversar?" Seu Pedro era um amor de pessoa. Mas a verdade é que não havia outras meninas bonites em lugar algum. Desde pequena Marina sempre achara suas colegas fúteis demais com toda aquela maquiagem e roupas caras, maior babaquice. Não se importava de verdade de não ter outras amigas ou amigos se Seu Pedro era seu único amigo. Ele era como um avô para Marina e ela se sentia revigorada a continuar lutando para não virar mais uma Barbie quando estava com ele. Depois de conversarem os dois assim como quem não quer nada por horas a fio, Seu Pedro parava de discutir as bobagens aleatórias e perguntava, pedia quase como súplica para jogar damas com Marina num dos tabuleiros de pedra da antiga pracinha. Ela era sua única amiga também, ele falava com gente de mais para dizer a verdade mas era Marina, aquela menina meio quieta de mais que passava os dias balançando suas ideias no balanço vermelho da antiga praça, quem enchia seus dias de alegria e trazia de volta um pouca da sua aurora. Ele parecia ter 15 anos como Marina. Mas o jogo de damas era sempre Seu Pedro quem ganhava não tinha jeito, estava 349 jogos a 4 para o risonho homem de cabelos grisalhos. Marina nunca se importara muito com as derrotas, mas valorizava muito mesmo cada vitória. Seu Pedro nunca deixava Marina ganhar, não facilitava um pouquinho sequer. Todas as 4 vezes que ela ganhara fora com os devidos méritos. E assim era Seu Pedro. E assim era Marina. Depois de passarem algum tempo juntos lá ia Marina almoçar na sua casinha de tijolo à vista, meio sem graça, ir pra escola, onde tinha dezenas de colegas mas nenhum amigo. E lá ia Seu Pedro para a biblioteca pública para a companhia de centenas de livros mas nenhum amigo. Eles não se viam mais naquele dia. Mas Marina sabia que no dia seguinte quando estivesse balançando suas ideias no seu balaço vermelho, Seu Pedro ia sair para comprar jornal e ficar longas horas conversando com Antônio, o dono da padaria, depois compraria uma baguete que acabara de sair do forno a lenha. Mas não naquela sexta-feira dos ventos, nem no dia seguinte, nem no outro. Nem no outro mês. Mas Marina estava sempre lá balançado suas ideias no seu balanço vermelho. Agora eram ideias tristes. Ela estava triste e suas ideias também estavam de luto. Era um nó na garganta, um aperto no peito. Marina tinha seus olhos mariscados azuis mar, marejados pela maré de lágrimas que manchavam de marinho sua marina face. Seu Pedro não voltaria. Ele não sairia para comprar jornal e nem ficar longas horas conversando com Antônio, o dono da padaria, de quem ele compraria uma baguete que acabara de sair do forno a lenha. Nem conversaria com ela, a menina Marina do vestido de bolinhas. Nem jogariam damas nas antigas mesas de pedra. A alma de Seu Pedro se fora com o sopro do vento da cálida madrugada de Outubro. Agora já se passara quase um ano que Marina se fechara por completo e já era indiferente a tudo. Já não se balançava em seu balanço vermelho. Já não jogava damas. Já não ganhava por méritos, nem perdia de lavada. Foi então que um dia confundindo a vida pacata de Marina se sentou do lado dela um garoto. Estava no ônibus, voltando da escola. Ela o ignorou como sempre fazia com todo mundo. Mas todo dia a história se repetia, sempre o mesmo garoto. Sempre o mesmo lugar. Então o garoto certa vez com um livro em mãos perguntou, meio como quem quer alguma coisa mas faz que não quer nada, para a menina Marina: "Qual seu nome? Não quero ser impertinente, é que eu sempre te vejo por aqui e você é tão bonita e sempre te vejo carregando livros inteligentes, livros que nos contam histórias que valem a pena ser lidas. Os livros são seus certo? Certamente deve tem amigas mas parece tão sozinha..." E Marina calada simplesmente fechou seu exemplar de A República e desceu três paradas antes da sua casa. Não podia falar com estranhos certo? Rubra, sem dirigir ao menos uma palavra ao garoto desceu aos solavancos. O menino não falou nada nos dias que se seguiram, nem sequer sentou no lado da nossa protagonista. Até que um dia Marina vendo que o garoto parecia infeliz foi se sentar ao seu lado meio desconfiada. Porque ela ficava tão infeliz assim pela infelicidade do garoto? Seu coração disparava. Suas mãos suavam. Seria medo? "Olá garoto, porque estás tão triste como a chuva que cai lá fora?" perguntou Marina. E o garoto se deteve a dizer: "Olá menina. Estou tão triste porque eu queria conhecer a menina de olhos azuis mar que faz meu coração disparar e minhas mãos suarem mas acho que meu passado engoliu o presente e hoje o futuro jaz morto como tudo na vida" Marina meio inquieta saiu na parada próxima. Marina tinha seus olhos mariscados azuis mar, marejados pela maré de lágrimas que manchavam de marinho sua marina face. Porque seu coração doía tanto? No outro dia lá foi Marina sentar do lado do garoto, agora ela via como ele era bonito com seus all star, jeans meio roto e camiseta azul. Azul marinho como os olhos de Marina. Hoje ele carregava alguns livros grossos. Eram apenas livros de escola, Marina supôs. Ah se marina tivesse coragem! Ou se controlasse o palpitar aleatório do seu coração... Marina estava tão perdida em meio a tantos pensamentos que nesse dia quando o menino desceu ela se sobressaltou, mas antes mas antes disso ele disse "adeus" e paralisou Marina beijou-a inesperadamente nos lábios. Adeus? Porque adeus? Pensou Marina atônita. Seu coração doía tanto! E ela passou da parada de sua casa. Não tinha jeito. Teria que caminhar. Estava saindo do ônibus quando viu que o garota havia deixado algo no banco. Um livro. Luna Clara e Apolo Onze. Luna Clara e Apolo Onze? Desceu do ônibus com o livro em mãos. Por meses o livro ficou esquecido na gaveta. Certo dia abriu-o. E leu na primeira página. E a segunda. E todas elas. No final do livro havia uma coisa escrita com uma caligrafia meio inclinada, meio apagada. Era difícil de ler. Marina cerrou os olhos e leu: Pedro Dorneles. Pedro fora o primeiro grande amor da menina Marina.

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